DESEJO INSÓLITO
Por Janailson Macêdo
Ana, minha esposa, está grávida de cinco meses. Enquanto o nosso primogênito não nasce, ela vem surpreendendo a mim e a si mesma com desejos cada vez mais exóticos.
O último deles ocorreu na semana passada. Era fim de tarde e nós arrumávamos a dispensa quando, de repente, Ana encontrou no fundo do armário uma pequena sacolinha plástica branca com uma inidentificável coisinha miúda no interior. Após ela desatar o nó frouxo das alças e abrir o saco, deparamo-nos com um solitário pão francês que possivelmente jazia ali há semanas, pois já estava chocho, murcho e quase totalmente coberto por uma camada de minúsculos fungozinhos cinzentos.
Foi interessante a reação dela ao achado: Ana ficou estática, quase hipnotizada, contemplando o pão carcomido pelo mofo. Quase imóvel, eu observava a expressão de cobiça e prazer inesperado desenhada em sua face. Achei estranho não ver, como era habitual em momentos assim, o rosto dela ser tomado por sinais de repulsa e nojo.
Ana olhava para o objeto no interior do saco como uma mãe que observa o filho recém-nascido dormir quietinho dentro do berço. O rosto dela só costumava ficar daquele jeito em momentos prazerosos. Como na vez que a presenteei com um delicioso bolo de chocolate, em comemoração aos nossos seis meses de casamento.
Súbito, Ana voltou a si e percebeu que eu a fitava com uma expressão interrogativa. Ela rapidamente re-configurou o semblante e a exteriorização facial dos pensamentos. Em seguida, para disfarçar, fechou de forma mecânica o saco e o levou, com aparente desinteresse, até a lixeira da cozinha.
Sem dúvida, aquele comportamento representava um ponto assimétrico no seu histórico. O normal seria vê-la pegar o objeto bem com a pontinha dos dedos, afastando-o o máximo possível de si enquanto se locomovia até a lixeirinha de plástico. Na seqüência, ela pisaria concentrada no mecanismo que faz a tampa da lixeira levantar e, sutil, largaria o saco, esperando que fosse cumprida a lei da gravidade. Só ficaria satisfeita ao ver a tampa se fechar, sinal de que não dividiria de novo o espaço com o artefato nojento.
Eu não sabia, mas aquela aparente indiferença era só externa. No íntimo, minha mulher lutava contra um forte impulso que a incitava a devorar de imediato o alimento coberto pelo mofo. Ana apetecia secretamente o que mais se assemelhava à lembrança ou ao cadáver de um pão. Via-o se derreter em sua boca, completando uma espécie de lacuna imaginária, e projetava mentalmente o clímax do contato com tal delícia, momento de raro de orgasmo alimentício.
A atípica vontade parecia incontrolável. Nos primeiros minutos ela ainda era pendular e dava pequenas tréguas a minha esposa. Depois de algum tempo, entretanto, Ana não conseguia mais redirecionar o foco de sua atenção.
Lembro-me que à noite, durante o jantar, ela nem tocou no filé de peixe ao creme preparado por mim, mesmo se tratando de um dos seus pratos favoritos. Perguntei-lhe se havia algo errado. Ela respondeu-me que não, que apenas perdera o apetite.
Ana não me revelou no momento que sua mente teimosa e fidelíssima não estava abrindo vagas para possíveis concorrentes do pão mofado.
Apesar disso, ela se mantinha firme, contrapondo-se à excentricidade da sua mente. A todo o momento, todavia, ela tinha a resistência testada. Além de atrapalhar o jantar, a recorrente imagem do pão a impediu de se concentrar na frente da tevê, deixou-a inquieta e não a permitiu pregar os olhos durante o início da madrugada. Como ela sofreu! Aquela disputa foi intensa e demorada: de um lado, sua consciência dizia não ao capricho insano; do outro, o insólito desejo de grávida propunha em tom capcioso: “sacia-me e te liberto”. Lá por volta das três da manhã, contudo, ocorreu o nocaute. Depois de vários rounds, o desejo venceu a luta, apelando para o ponto fraco da adversária: o cansaço.
* * *
De repente, um movimento leve na cama me fez acordar no meio da madrugada. Meio que por reflexo, virei o rosto para ver se Ana estava bem e a vi saindo do nosso quarto na pontinha dos pés. Resolvi segui-la, silenciosamente, numa mescla de impulso e curiosidade. Ainda bem que o brilho da lâmpada acesa entregou-lhe rápido o ponto de destino: a cozinha.
Com cuidado, fiquei espreitando-a discretamente da entrada da cozinha, sem transpor a linha da porta. Vi-a segurando uma sacola branca, que desempenhava a função de guardanapo para algo semelhante a um sanduíche. Olhando mais atentamente, porém, constatei: não se tratava de um sanduíche, era algo menor, talvez um pãozinho pequeno.
Foi nesse momento que, ao observar a expressão em seu rosto, a mesma de horas antes, outra idéia me veio repentinamente à cabeça: Ana não tinha um sanduíche em suas mãos, ela segurava o mesmo pão mofado do fim da tarde anterior. Fiquei chocado e admirado ao focalizar com mais atenção o objeto e constatar que minha suposição estava correta.
Ana se encontrava, enfim, frente a frente com o objeto de seu anseio e, quase em transe, começou a levá-lo à boca. Em segundos estaria tudo terminado, ela poderia dormir tranqüila, libertar-se-ia do suplício e teria sua consciência livre de novo. Além disso, como brinde, ela ainda conheceria o sabor de um pão mofado...
“O que você está fazendo?” Perguntei, penetrando na cozinha, como forma de ter a presença notada e evitar a catástrofe. Não consegui simular uma entrada casual, pela minha forma de agir dava para ela perceber que eu sabia o que estava acontecendo. Encabulada, Ana lançou-me um olhar de conformação (falta algo), que traduzi como sendo um misto de “É! Essas coisas acontecem!” e “Que foi? Vai dizer que às vezes você também não tem impulsos e desejos esquisitos?”.
Ficamos na cozinha conversando por alguns minutos. O efeito do transe havia finalmente desaparecido, fazendo-a se dar conta do ato que estivera prestes a praticar. Nesse momento, ela me relatou a batalha que enfrentara nas últimas horas. Rimos bastante da situação. “Nossa criança corre agora o risco de nascer com cara de pão mofado”, brinquei. “Se for assim, paciência! Pior seria não nascer! Não é?”, respondeu-me ela sorrindo. Ana aparentava ter solucionado o problema e voltado ao seu estado normal. Fomos então deitar. Aliviada, ela caiu depressa no sono. Já eu passei ainda alguns minutos refletindo e especulando sobre o que faz certas grávidas terem desejos tão fora do comum...
No entanto, a peleja da minha mulher com o desejo insólito parece que não acabou por aí. No outro dia logo cedo - durante a preparação do meu café da manhã - fui jogar uma embalagem de biscoitos na lixeira da cozinha e percebi que o pão mofado não estava mais lá dentro. Certamente não fui eu quem o retirou de lá, e nenhuma outra pessoa poderia ter mexido ali, a não ser Ana, que ainda estava na cama dormindo naquela hora. Será que o desejo retornou e a fez levantar de novo no meio da madrugada? Será que ela não poderia ter vencido tão facilmente a batalha contra uma força tão potente? Já se passou uma semana e eu ainda não a questionei acerca daquele desaparecimento. Hoje, porém, decidi! Vou saciar minha curiosidade, vou perguntar-lhe sobre o destino do pão mofado! Quem sabe um dia eu conte a vocês o que aconteceu afinal...
BLECAUTE
Uma Revista de Literatura e Artes
Campina Grande (PB) - Ano I - N.2 – FEV. 2009
Editores:
Bruno Rafael de Albuquerque Gaudêncio
Janailson Macêdo Luiz
João Matias de Oliveira Neto