terça-feira, 21 de abril de 2009

TIRADENTES, MITO OU HERÓI ?

Há 215 anos, no dia 21 de abril de 1792, Joaquim José da Silva Xavier foi enforcado em praça pública, no Rio de Janeiro. Na ocasião, um padre falou ao povo que assistia à execução:
“Não traias o teu rei nem por pensamento”. Foi o ato, pelo qual, o governo luso pôs fim à Inconfidência Mineira, exemplo de como acontecimentos históricos de alcance aparentemente limitado podem ter impacto na história de um país. Como fato material, o movimento de rebeldia, iniciado em 1789, não chegou a se concretizar, e suas possibilidades de êxito, apesar do envolvimento de militares e contatos no Rio de Janeiro, eram remotas. A relevância da Inconfidência deriva de sua força simbólica: Tiradentes transformou-se em herói nacional e as cenas de sua morte, o esquartejamento de seu corpo, a exibição de sua cabeça passaram a ser evocadas com muita emoção e horror nos bancos escolares. Isso aconteceu através de um longo processo de formação de um mito que tem sua própria história.Durante o período em que o Brasil se manteve como colônia, Tiradentes foi visto como criminoso, pois tinha cometido um crime de lesa-majestade, isto é, contra a rainha e o poder do Estado luso.
Enquanto o Brasil não se tornou independente, prevaleceu a versão dos colonizadores. Durante o Império, o episódio incomodava, pois os conspiradores tinham pouca simpatia pela forma monárquica de governo.Além disso, os dois imperadores do Brasil eram descendentes em linha direta da Rainha Dona Maria, responsável pela condenação dos revolucionários. A proclamação da República favoreceu a projeção do movimento e a transformação da figura de Tiradentes em mártir republicano. A República não possuía nenhuma figura capaz de sintetizar e sustentar simbolicamente o novo regime. A proclamação fora o desfecho de um movimento de poucas raízes populares, praticamente um golpe militar, que precisava de legitimação. Era o momento de constituir uma figura heróica capaz de congregar diferenças, de unificar a nação e conferir legitimidade popular ao novo regime. O perfil de herói que acabou prevalecendo foi o do mártir Tiradentes.
Sua atitude, assumindo toda a responsabilidade pela conspiração, a partir de certo momento do processo, e o sacrifício final facilitaram a mitificação de sua figura, logo após a proclamação da República. O 21 de abril passou a ser feriado, e Tiradentes foi cada vez mais retratado com traços semelhantes às imagens mais divulgadas de Cristo, tornado uma figura cívico-religiosa. Segundo José Murilo de Carvalho, “a associação do herói com Cristo foi parte desse processo”. A
verdade é que ela já se fazia presente nos anos 60 do século XIX, e se consolidava com a obra de Joaquim Norberto de Souza e Silva em 1873. O condenado que saiu da cadeia em “solilóquios com o crucifixo”, que havia perdoado a seu próprio carrasco, tinha seu momento máximo ao pé da forca. A figura do condenado ao enforcamento, com a corda no pescoço, tornou-se o grande símbolo da redenção do país.
Daí a sua iconografia tradicional, de barba e camisolão, à beira do cadafalso, vagamente assemelhado a Jesus Cristo e, obviamente, dispondo de verossimilhança. O máximo que Tiradentes poder-se-ia permitir era um discreto bigode. Na prisão, onde passou os últimos três anos de sua vida, os detentos eram obrigados a fazer a barba. Estudos contemporâneos, como o do historiador inglês Kenneth Maxwell, autor de “ A devassa da devassa”, apresentam um Tiradentes bem mudado: sem barba, sem liderança e sem glória. Para Maxwell, Joaquim José da Silva Xavier não foi senão um “bode expiatório” da conspiração. Para ele “o alferes provavelmente nunca esteve plenamente a par dos planos e objetivos mais amplos do movimento”, até porque, a Inconfidência foi um movimento de oligarquias, no interesse da oligarquia, sendo o nome do povo invocado apenas como justificativa. Como simples alferes – o equivalente a tenente, hoje – dificilmente Tiradentes lideraria a alta hierarquia militar, padres e desembargadores.
Herói, mito ou bode expiatório? O enfoque excessivo sobre a figura de Tiradentes acabou deixando de lado o real significado histórico do movimento que foi o conflito entre grupos econômicos da colônia e do reino. Independentemente das versões dadas ao movimento e ao próprio Tiradentes, foi Cecília Meireles quem nos deixou uma bela lição sobre liberdade que perpassou e perpassará por todos os tempos da nossa história: “ Liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda”.


* José Ernani de Almeida. Mestre em História. Professor da Faplan.

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